toda dor é por enquanto

12 março 2017


Teus olhos viam meu embrião, e em teu livro foram registrados todos os meus dias;
prefixados, antes mesmo que um só deles existisse!
Salmos 139.16

Um mês atrás, um conhecido meu tirou a própria vida. Quando soube da notícia, fiquei em estado de choque, de um jeito que jamais me senti antes: não consegui, mal consegui dormir à noite. Ainda é difícil falar sobre isso. O pensamento ficou constante em minha mente, me deixando mais introvertida que o normal. Não sabendo lidar com os efeitos que tal situação causou em mim, tive de procurar ajuda profissional. 

No meio a toda essa tempestade, acabei descobrindo problemas meus que estiveram engavetados durante toda a minha vida e que jamais permitiram que eu seguisse minha vida tão livremente.

Durante a minha infância sofri de maneira terrível com o bullying, palavrinha chata que me dói só de escrevê-la. Quando eu estava na 2ª série, uma menina, na sala de aula, sem motivo algum, puxou de uma vez a minha calça, deixando à mostra minhas roupas íntimas. Me senti um lixo. Nos outros anos letivos, o "problema" era meu cabelo, meu nariz... e tantos outros que já nem me recordo mais. Eu sempre fui um problema, mesmo eu não tendo problema algum. 

Cresci pensando que eu era uma aberração, que eu não era digna de ter boas amizades, bons relacionamentos, de receber bondade de qualquer pessoa e tantos outros problemas que não cabem num parágrafo. Nunca me achei boa o suficiente pra qualquer coisa. Por conta disso, acabei me tornando extremamente perfeccionista: tenho de ser boa em tudo o que fizer. O lado bom disso é que eu que acabei sendo autodidata em inglês, em violão, em teclado e em canto, por exemplo. O lado ruim é que, mesmo tendo superado várias coisas, dificilmente me acho boa o suficiente seja lá para o que for e isso acaba me impedindo de fazer várias coisas, dentre elas, gravar vídeos para o meu canal.

Não tenho traumas da separação dos meus pais, mas, mesmo tendo superado muitas coisas, ainda tenho resistência às pessoas. Encontro-me, hoje, num terrível dilema que me permite amar o próximo como a mim mesma, mas que, ao mesmo tempo, não deixa o próximo entrar na minha vida tão facilmente, porque eu simplesmente não sei ser vulnerável, eu sei ser, sempre, defensiva. 

Diante de tudo isso que está acontecendo, eu tenho certeza de algumas coisas: D-s poderia ter permitido que eu superasse esses problemas de uma só vez, mas, por razões que não sei, as coisas não têm se sucedido assim. Já ouvi e vi histórias de pessoas que foram curadas do câncer, por exemplo, através de uma única oração, mas já presenciei, também, casos de pessoas que, sendo cristãs, morreram com câncer. Ser cristão, ao contrário do que muitos têm pregado, não nos torna imune ao sofrimento, à dor, às doenças. 

Sei que D-s, em toda Sua sabedoria e amor, está no comando até quando tudo está dando errado em nossas vidas, quando a promessa parece que não vai se cumprir. Ele sabe o porquê de todas as coisas, sejam elas ruins ou boas. Ele sabe porque você mora onde você mora, porque a sua aparência é assim, porque você se veste assim, o porquê do nosso sofrimento. A missão é, mesmo com toda dor e sofrimento, continuar falando sobre o amor de Jesus onde estamos.

Que saibamos nos alegrar, também, com o sofrimento, pois, no fim, ele é para a glória de D-s e ele também acaba nos tornando pessoas melhores.


voltar e recomeçar

04 fevereiro 2017



Arranjei o meu primeiro emprego com carteira assinada em 2014, para trabalhar como telemarketing bilíngue durante o período da Copa do Mundo. O meu maior objetivo com esse emprego era comprar uma câmera semi-profissional. Não demorou muito, cerca de um mês depois do contrato eu já estava com a minha Canon em mãos. Depois de muito tempo esperando, eu tinha, finalmente, a minha tão desejada câmera semi-profissional

De 2014 pra cá, fiz muitos freelas com fotografia, de mini-wedding a ensaio de 15 anos e acabei entrando num mundo cada vez mais distante do que eu tinha planejado para mim e para a minha fotografia. Apesar de todo crescimento profissional e pessoal que a fotografia me trouxe, encontro-me hoje num dilema que me impede arduamente de seguir na profissão de fotógrafa como venho seguindo.

O problema é que eu não sou fotógrafa, eu sou artista e por estar sendo apenas fotógrafa ao longo desses últimos anos, dei uma olhada nos meus últimos trabalhos e vi que a Talita lá do início se perdeu no caminho. Eu preciso voltar do início e refazer os meus primeiros passos rumo à outra direção, rumo ao que eu sempre quis fazer. 

Diante dessa situação o que quero agora é me declarar como artista e, finalmente, fazer o que eu gosto e não apenas a fotografia que vende, que já não me faz mais feliz. A parte financeira, sem dúvidas, foi essencial, mas estou cansada de ter que me moldar para vender algo que é parte de mim e que tem quase se tornado algo sem significado. Eu não quero mais fazer uma fotografia por fazer, não foi esse meu objetivo no início, eu quero fazer o que eu acredito, mesmo que ninguém acredite, porque a gente tem que fazer essa vida valer a pena de algum modo.

E é rumo a esse objetivo que eu vou: voltar, recomeçar, me reencontrar.

A imagem pode conter: texto
                                                                              - via Atores da Depressão

bem rapidinho ali no nordeste

19 janeiro 2017

quando eu morrer voltarei para buscar 
os instantes que não vivi junto do mar 
(sophia de mello breyner andresen)

Essa viagem, que aconteceu na penúltima semana de julho, foi meio de última hora e passamos, dos 9 dias de viagem, praticamente 4 dias e meio na estrada. Não que não tenha valido a pena, mas só pra contabilizar mesmo. Nosso destino foi , saindo de Brasília para Cidelândia (uma cidadezinha que fica entre Imperatriz e Açailândia, todas no Maranhão), São Luís, depois Cidelândia novamente, São Miguel do Araguaia (GO) e Brasília.


(tirei essa foto quando chegamos ao estado do Maranhão, depois de passar tantas horas no Tocantins, chegar lá é uma sensação de: "estamos quase lá") 

Depois dumas 18h de carro até Cidelândia, uma tentativa frustrada de pegar um trem (sim, um trem) de Açailândia até São Luís, acabamos indo de ônibus pagando muito mais caro até a capital ludovicense. Aproximadamente 12h até lá. E haja estrada, parecia não ter fim. É o que dá viajar de última hora, mas tudo bem, deu tudo certo no final.

Agora se prepare para a rajada de fotos do centro histórico de São Luís, o Reviver. (são muitas mesmo). 





Quem é fotógrafo sabe que sensação é essa, né? Pois é, não teve focada com essa vista.













E, claro, tinha que ter fotos do mar.






Saudade, sentimento que fica, sempre.

a primeira chuva do ano

27 outubro 2016


Em meados de agosto e setembro de 2015, eu conheci o trabalho da Andrea Marie. O Here Begin, primeiro álbum de estúdio da cantora é um dos melhores álbuns que já ouvi e, depois que fiquei sabendo um pouco mais sobre como foi produzido, gostei mais ainda. É sempre uma grande alegria tirar um tempinho para ouvir novamente o Here Begin

No meu aniversário de 15 anos ganhei um teclado, um desses PSR da Yamaha, bem de iniciante. Aprendi umas coisas na internet e toco na igreja desde então, só que nunca me conformei em saber tão pouco e não conseguir tocar algumas músicas mais difíceis. Depois de aprender a gostar de música clássica, depois de ouvir inúmeras vezes o primeiro álbum da Daniela Araújo e, finalmente, conhecer o trabalho da Andrea Marie, eu cheguei à conclusão de que não dava mais: eu precisava estudar música.

Tentei o sorteio na escola de música - para cello -, pesquisei várias escolas particulares, professores particulares, mas nada realmente estava me agradando. Eu não queria um professor de teclado, eu queria um professor de piano, mas não um professor qualquer, tinha que rolar um sentimento artístico. Até que, num dia calmo, na segunda semana de março, vi um anúncio totalmente inesperado no Facebook: abri a página e... Tudo branco, preto e cinza. Wow! Uns traços num sketchbook. A trilha sonora de um filme que eu tinha visto há poucos dias. Abri o vídeo. Um cenário minimalista para Opus 37 e Arrivals n.2, do Dustin O'Hallaron. 

O que era aquilo? Eu não vi apenas alguém tocando piano num cenário meio minimalista, eu vi arte! E era exatamente o que eu estava procurando, como se eu tivesse feito um desenho e ele tivesse criado vida - mas, juro, não desenhei nada, eu só orei. 

Lembro-me de ter pensado muito a respeito das aulas na noite daquele dia. Um final de semana passou e, por fim, decidi mandar mensagem - toda tímida. Marquei a aula experimental para a terça, se não me engano. Acabou que a aula foi parar quinta. Seria na tarde de quinta, mas choveu, e as primeiras chuvas do ano aqui em Brasília são para compensar as longas semanas sem chuva. A aula, por fim, foi na terça, 8 de março, à noite.

Eu nem sabia por onde começar direito. O piano parecia que ia me engolir a qualquer momento, aquelas teclas pesadas, o som diferente do que eu estava acostumada, eu não sabia lidar com o peso dos pedais, deixava os ombros tensos... e o professor, bom, começou a me corrigir nos mínimos detalhes e a criar um plano de estudos para mim em menos de 30 minutos. Eu nem sabia muito bem como reagir. Fiquei feliz! A aula acabou, e tinha sido linda, mesmo sendo curta. 

Saí e ainda chovia. A L2 engarrafada por causa da chuva, mas o maior caos era dentro de mim com tantos sentimentos pós-aula experimental de piano. Coloquei os fones e comecei a caminhar em direção à rodoviária - nem sei quantos quilômetros. Eu comecei a chorar, porque quando eu não sei se estou feliz ou triste eu choro. Chorei, ri um pouco também, banhei na chuva, e, sobretudo e o mais importante, tinha achado aula de piano perfeita.

setembro amarelo

13 setembro 2016


Oi, gente, deixa eu contar uma coisa aqui: eu já tive depressão. É muito complicado falar sobre isso, mas é preciso quebrar esse silêncio. Como acredito que a maioria de vocês saiba, eu sou cristã protestante – evangélica, crente etc – e, por isso, o assunto é mais complicado ainda.

Tive o ápice – ou o abissal – da doença entre setembro e outubro do ano passado, quando, acreditem ou não, foi quando eu mais estive trabalhando nas coisas da igreja: tocava teclado e violão no louvor, cantava num coral, visitava inúmeras igrejas e tinha uma vida que é mais ou menos o padrão dos cristãos bem-sucedidos ministerialmente. Por um lado, uma vida bonita, mascarada com publicações no Facebook, selfies com várias pessoas diferentes e cada final de semana num lugar diferente com gente popular e, do outro lado, um fracasso na universidade, crises de choro em lugares públicos e todas as coisas que outrora davam cor a minha vida não tinham significado algum.

Na época, até tentei conversar com alguns amigos da igreja. Foi, sem dúvidas, uma das piores coisas que eu fiz, pois só piorou as coisas. Não recebi apoio e tampouco fui compreendida pelos poucos amigos que me cercavam. Da minha experiência traumática, o que posso extrair é que a igreja evangélica não está preparada para lidar com casos de depressão – ou com qualquer outro transtorno psicológico – e, na maioria das vezes, o discurso da igreja e de seus membros é absurdamente cruel. Sim, cruel. Não cabe outra palavra aqui. Num contexto em que é mais fácil espiritualizar as coisas em vez de aceitá-las como uma doença, por exemplo, a ignorância prevalece. Em outras palavras, num lugar onde dizem que o motivo da sua doença – pois depressão é uma doença e é tratável – é sua falta de fé, o seu pecado ou o demônio que está no seu corpo, o silêncio, o medo da rejeição e, principalmente, a incompreensão são um grande gatilho para piorar o quadro depressivo.

Depressão é uma doença, não é brincadeira, não é uma coisa bonitinha como romantizaram por aí. Há inúmeros casos de pessoas sofrendo dessa doença e não é diferente na igreja. O grande problema, pra mim, é que a igreja tem proclamado um discurso que cristãos são super-humanos que não podem sofrer, não podem ficar tristes, não podem ficar doentes etc. O que é uma grande mentira. Eu não acredito nesse evangelho de super-humanos. Enquanto o falso-evangelho diz isso, há um número crescente de cristãos que se suicidam – inclusive soube de um caso próximo que me deixou bem pensativa.

O que me alegra é que mesmo que as pessoas de perto não tenham compreendido o que eu estava passando, pessoas de longe apareceram na minha vida e foram anjos que me ajudaram com coisas pequenas, mas que fizeram toda a diferença. Conheci cristãos que entendem que depressão é, de fato, uma doença e que em momento algum apontaram o dedo dizendo que a culpa da doença era minha. Porque, realmente, não era, como alguns fizeram eu pensar.

Se você, cristão ou não, sofre de depressão, saiba que você não é um fracasso como a sociedade fez você pensar. Você também não é culpado por sofrer de uma doença, tampouco um indigno do amor de D-s por sofrer de depressão, ansiedade ou por já ter tentado suicídio. A sua ansiedade – aquela ansiedade doença, não essa ansiedade do dia-a-dia – não é falta de confiança em D-s, é uma doença que tem tratamento.

// texto publicado originalmente no meu facebook pessoal

her (2013) e solidão

06 setembro 2016



O que mais gosto na arte é o poder de influência que ela tem sobre nós que traz à tona inúmeros pensamentos imersos na nossa memória. Mais do que uma mera imitação, a arte também parece estar sempre um passo à frente do nosso tempo, sobretudo, aquela que os críticos renomados consideram boa arte. 

Assisti Her (2013), do Spike Jonze, há cerca de um mês. Pouco entendo de cinema, mas sei que Her é uma obra de arte, sem o menor vestígio de dúvidas. Eu poderia falar exaustivamente de cada aspecto do filme e, no fim, eu ainda seria muito pouco, pois, desde que assisti, ainda não consegui digerir todos os sentimentos e sensações que a obra me causou. É preciso ver, é preciso sentir, é preciso admirar a paleta de cores, é preciso ouvir cada nota da trilha sonora... (composta por Owen Pallett e Arcade Fire).

Her, que conta a história solitária do Theodore, me intriga e me faz pensar sobre diversas áreas da minha vida, mas, especificamente, nas amizades virtuais que eu cultivei ao longo desses anos. É estranho como conversamos tanto e ainda sentimentos amor (?) por pessoas que nunca palpamos, sequer olhamos nos olhos, não sentimos o cheiro, não tiramos selfies, não tomamos sorvete juntos etc. Por quê? Essa pergunta permeia a minha mente. Será que, por causa da complexidade de compreensão que a vida tem, temos medo de interagir fisicamente com outras pessoas?  

Nessa era tecnológica que vivo, pouquíssimas vezes ao longo desses últimos anos eu conversei por horas frente a frente com alguém e, a cada ano que passa, a cada rede social que chega, menos ainda eu converso. Não só eu, aliás, mas todas as pessoas que eu conheço parecem estar imersos nas suas bolhas tecnológicas, vivendo cada uma na sua solidão disfarçada de posts em redes sociais. E, mais uma vez, eu bato nessa tecla que é o fantasma da minha geração. Talvez eu nunca ache as respostas para os meus questionamentos, mas fico aqui a martelar...

Acabei dando nota 2/5 no Filmow, não porque achei ruim, mas porque fiquei abalada. Vou assistir novamente e, quem sabe, eu escreva novamente sobre as minhas impressões. Pode ser também que eu fique mais triste ou mais feliz ao vê-lo. Não dá pra prever como uma obra de arte vai fazer a gente se sentir...
 
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